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Fases do Ciclo

TPM e treino: ajustar ou empurrar?

6 min de leitura · Por Leticia Pereira

Pergunta que aparece toda semana com aluna: na TPM, treino mesmo me sentindo péssima, ou descanso? A resposta honesta é depende, e o “depende” tem critérios concretos. Treinar com TPM não é heroísmo nem é castigo, é decisão informada baseada em quais sintomas você está sentindo, qual treino está marcado, e qual fase do ciclo se aproxima.

O que é TPM, fisiologicamente

TPM (tensão pré-menstrual) é o conjunto de sintomas que aparece na fase lútea tardia, geralmente nos 5 a 10 dias antes da menstruação. Estima-se que entre 70 e 90% das mulheres experimentam algum grau de sintoma pré-menstrual, com 20 a 30% relatando sintomas significativos a ponto de interferir na rotina (Yonkers & Simoni, 2018).

Na fase lútea tardia, progesterona e estrogênio caem rapidamente. Essa queda é o que dispara a sintomatologia. Os efeitos vão muito além do humor:

  • Inchaço e retenção de líquido: progesterona afeta retenção de sódio
  • Sensibilidade mamária: pico hormonal anterior pode deixar tecido sensível
  • Dor de cabeça: relacionada à queda brusca de estrogênio
  • Alteração de humor: serotonina cai com queda de estrogênio
  • Cansaço e queda de energia: progesterona alta promove sonolência
  • Aumento de fome e desejo por carboidrato: alteração de leptina e glicose
  • Cólica antes do sangramento: prostaglandinas começam a subir

O que muda na performance

Estudos mostram que, em média, força máxima e capacidade aeróbica não caem significativamente na fase lútea tardia (McNulty et al., 2020). O que muda mais é percepção de esforço: o mesmo treino pode parecer mais difícil, mais cansativo, mais penoso.

Isso é importante porque significa que biologicamente você ainda consegue treinar bem nessa fase. O que limita não é o músculo, é o sistema nervoso central percebendo o esforço como mais alto. Para a maioria das mulheres, depois de aquecer, o treino flui razoável.

Quando ajustar (não cancelar)

Treinar na TPM pode até melhorar sintomas, especialmente humor, dor de cabeça e inchaço. Estudos mostram que exercício aeróbico moderado e treino de força reduzem severidade de sintomas pré-menstruais (Pearce et al., 2020). Mas o tipo e a intensidade fazem diferença.

Ajustes que costumam funcionar bem na TPM:

  • Manter treino de força com cargas usuais ou ligeiramente reduzidas (5 a 10%)
  • Reduzir volume: 1 série a menos por exercício, ou 1 exercício a menos no treino
  • Trocar HIIT pesado por cardio moderado contínuo: bike, caminhada, esteira em ritmo confortável
  • Ampliar aquecimento: 5 a 10 minutos a mais para o corpo abrir
  • Hidratar bem: ajuda com retenção de líquido (parece contraintuitivo, mas funciona)
  • Manejar cafeína com cautela: pode piorar ansiedade e sensibilidade mamária
⚡ Em uma frase

Treinar na TPM costuma melhorar como você se sente. Pular o treino na TPM costuma piorar.

Quando empurrar mesmo

Se a aluna chega no treino dizendo “estou na TPM”, a primeira pergunta que faço é: dormiu bem? Se sim, geralmente vale fazer o treino marcado, talvez com pequenos ajustes. Pesquisa em performance esportiva mostra que sintomas pré-menstruais raramente são causa direta de queda objetiva de performance em atletas treinadas (Sims & Yeager, 2016).

Empurrar faz sentido quando:

  • Sintomas são leves a moderados (humor irritado, leve inchaço, leve cansaço)
  • Sono na noite anterior foi adequado
  • Não há dor de cabeça ou cólica forte
  • Treino do dia é dentro do esperado (não é PR de força ou HIIT extremo)

Quando descansar de verdade

Existem situações em que o melhor é trocar o treino do dia por descanso ou movimento muito leve. São casos onde insistir não traz ganho e pode atrapalhar:

  • Dor de cabeça forte (enxaqueca menstrual confirmada)
  • Cólica intensa que limita movimento
  • Sangramento já começou e está abundante com fadiga marcada
  • Sono fragmentado nas últimas 2 a 3 noites consecutivas
  • TPMM (transtorno disfórico pré-menstrual) com sintomas emocionais severos

Nesses casos, troque por caminhada leve, alongamento, mobilidade. Movimento ainda ajuda, mas treino estruturado pode esperar 1 ou 2 dias sem prejuízo significativo.

O padrão que recomendo às alunas

Em vez de decidir todo mês “treino ou não treino”, construo um modelo que se repete:

  1. Mantém os treinos marcados na agenda da semana de TPM
  2. Reduz expectativa de PRs e progressão de carga (essa semana é manutenção)
  3. Faz aquecimento mais longo (10 a 12 min)
  4. Se o corpo abrir, faz o treino normal. Se não abrir, ajusta para 70% do volume planejado.
  5. Apenas em sintomas severos (lista anterior), troca por descanso ativo
TPM piora quando você se isola e fica imóvel. Manter rotina de movimento é parte do tratamento, não obstáculo dele.

Se a TPM está significativamente atrapalhando treino mês após mês, ou se você suspeita de TPMM (sintomas emocionais que destroem rotina), vale conversar com ginecologista. Existem manejos clínicos eficazes que mudam totalmente como você vive essa fase.

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Referências

  1. McNulty, K. L., Elliott-Sale, K. J., Dolan, E., Swinton, P. A., Ansdell, P., Goodall, S., et al. (2020). The Effects of Menstrual Cycle Phase on Exercise Performance in Eumenorrheic Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine, 50(10), 1813-1827.
  2. Yonkers, K. A., & Simoni, M. K. (2018). Premenstrual disorders. American Journal of Obstetrics and Gynecology, 218(1), 68-74.
  3. Pearce, E., Jolly, K., Jones, L. L., Matthewman, G., Zanganeh, M., & Daley, A. (2020). Exercise for premenstrual syndrome: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BJGP Open, 4(3).
  4. Sims, S. T., & Yeager, S. (2016). ROAR: How to Match Your Food and Fitness to Your Female Physiology for Optimum Performance, Great Health, and a Strong, Lean Body for Life. Rodale.