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Hormônios e Ciclo

Fase ovulatória: o pico hormonal e o que fazer com ele

6 min de leitura · Por Leticia Pereira

A ovulação é o evento central do ciclo menstrual, o momento em que o ovário libera um óvulo maduro. Para a função reprodutiva, é tudo. Para quem treina, é uma janela curta de pico hormonal que algumas mulheres percebem (e aproveitam) e outras passam direto sem notar diferença. Vale entender o que muda nesse período de aproximadamente 24 a 48 horas em torno do dia 14 do ciclo.

O que acontece no corpo na ovulação

A ovulação é precedida por um pico do hormônio luteinizante (LH), que dispara a liberação do óvulo. Esse pico de LH acontece em horas, e o óvulo é liberado em torno de 24 a 36 horas depois.

Em termos hormonais e fisiológicos, o que acontece:

  • Pico de estrogênio: atinge o ponto mais alto do ciclo nas horas que antecedem a ovulação, depois cai abruptamente
  • Aumento brusco de LH e FSH: hormônios que disparam a ovulação em si
  • Pequena queda na temperatura basal antes do pico ovulatório, seguida de subida sustentada de 0,3 a 0,5°C nos dias seguintes (sinal usado para confirmar que a ovulação aconteceu)
  • Mudança no muco cervical: fica mais elástico e claro
  • Em algumas mulheres, dor leve no baixo ventre (mittelschmerz, “dor do meio”) no dia da ovulação

O que isso significa pra performance

O estrogênio em pico tem efeitos sistêmicos que vão muito além da função reprodutiva. Para quem treina, alguns efeitos relevantes:

  • Possível pico de força máxima: alguns estudos mostram que mulheres conseguem mover cargas ligeiramente maiores em torno da ovulação, especialmente em testes de 1RM (Hansen, 2018). O efeito é pequeno e nem todas percebem.
  • Disposição mental e libido aumentadas: efeitos do estrogênio sobre neurotransmissores costumam deixar muitas mulheres com mais energia, foco e vontade de movimento nesse período.
  • Recuperação tecidual ainda ágil: o estrogênio mantém efeitos protetores em tecido muscular e tendões, herdados da fase folicular.
  • Sensibilidade à insulina ainda boa: o corpo continua usando carboidratos com eficiência.
⚡ Em uma frase

A ovulação é o ápice da janela folicular. Se você se sente especialmente disposta nesse período, é o momento de testar limites com técnica preservada.

Atenção a um detalhe importante: a frouxidão ligamentar

O pico de estrogênio aumenta levemente a frouxidão ligamentar, especialmente nos joelhos. Estudos epidemiológicos mostram que o risco de lesão de ligamento cruzado anterior (LCA) em atletas mulheres é maior na fase pré-ovulatória e ovulatória, comparado a outras fases (Hewett et al., 2007; Beynnon et al., 2006).

O efeito é estatisticamente significativo, mas pequeno em termos absolutos. O que isso significa na prática:

  • Para treino de força bem técnico: praticamente não muda nada. Continue normalmente, com atenção a controle de movimento.
  • Para esportes de impacto (corrida, basquete, vôlei, beach tennis, futebol): vale ter atenção redobrada a aquecimento e técnica de aterrisagem nesses 2 a 3 dias.
  • Para treinos pliométricos pesados (saltos, mudança rápida de direção): se você é propensa a problemas de joelho, pode ser sensato espaçar essas sessões para outras fases do ciclo.

Importante: isso não é razão pra parar de treinar ou ter medo da ovulação. É informação para quem tem histórico de lesão de joelho ou pratica esporte de alto impacto.

Como aproveito a ovulação na prescrição

Para alunas que percebem aumento de disposição nesse período:

  • Tentativas de PR ou progressão de carga em compostos principais
  • Sessões de força de alta intensidade com técnica preservada
  • HIIT e treinos intervalados tendem a render bem
  • Esportes de explosão (corrida, beach tennis, dança): o que você gosta de fazer, faça com gás

Para alunas que não percebem diferença ou têm desconforto pélvico:

  • Programa segue normal
  • Se houver dor abdominal forte, ajustar para trabalho de mobilidade e força com isolamento por 1 a 2 dias
  • Pode ser oportuno aproveitar pra fazer avaliação física, fotos de progresso, medidas, pois a retenção hídrica costuma estar baixa
A ovulação é a janela em que o corpo está mais preparado para esforço. Se você se sente bem, use. Se sente desconforto, respeite. Os dois são respostas válidas.

Sinais de que sua ovulação não está acontecendo

Importante saber: nem toda menstruação significa que houve ovulação. Ciclos anovulatórios (sem ovulação) acontecem ocasionalmente em mulheres com ciclo regular, e com frequência maior em mulheres com SOP, em deficit calórico crônico, em overtraining, ou em transição perimenopáusica.

Sinais que sugerem que a ovulação pode não estar acontecendo regularmente:

  • Ciclos muito curtos (menos de 21 dias) ou muito longos (mais de 35 dias)
  • Ciclos muito irregulares de mês a mês
  • Ausência das mudanças típicas (muco cervical, mittelschmerz, mudança de temperatura basal)
  • Períodos muito leves ou ausência de menstruação por meses

Se isso é seu caso, vale conversar com ginecologista. Anovulação prolongada tem implicações para fertilidade, densidade óssea, saúde cardiovascular e composição corporal. Em quem treina muito, pode ser sinal de amenorreia hipotalâmica funcional, parte da síndrome de RED-S (deficit energético relativo no esporte).

Em geral, ouvir o ciclo significa ouvir todas as fases. A ovulação, mesmo passando despercebida para muitas mulheres, é dado importante. Se ela está acontecendo regularmente, é sinal de que o entorno do treino está em equilíbrio: alimentação suficiente, sono adequado, estresse manejado, volume de treino compatível com a vida.

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Referências

  1. Hewett, T. E., Zazulak, B. T., & Myer, G. D. (2007). Effects of the menstrual cycle on anterior cruciate ligament injury risk: a systematic review. The American Journal of Sports Medicine, 35(4), 659-668.
  2. Beynnon, B. D., Johnson, R. J., Braun, S., et al. (2006). The relationship between menstrual cycle phase and anterior cruciate ligament injury: a case-control study of recreational alpine skiers. The American Journal of Sports Medicine, 34(5), 757-764.
  3. Hansen, M. (2018). Female hormones: do they influence muscle and tendon protein metabolism? Proceedings of the Nutrition Society, 77(1), 32-41.
  4. Stellingwerff, T., Heikura, I. A., Meeusen, R., et al. (2021). Overtraining Syndrome (OTS) and Relative Energy Deficiency in Sport (RED-S): Shared Pathways, Symptoms and Complexities. Sports Medicine, 51, 2251-2280.
  5. Sims, S. T., Kerksick, C. M., Smith-Ryan, A. E., et al. (2023). International society of sports nutrition position stand: nutritional concerns of the female athlete. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 20(1).