Fase lútea: quando desacelerar é acelerar
A fase lútea é a parte mais incompreendida do ciclo. Período entre ovulação e menstruação, em torno dos dias 17 a 28, em que a progesterona domina, a temperatura basal sobe e muitas mulheres sentem que o treino, do nada, ficou mais difícil. A resposta intuitiva da maioria é forçar mais. A resposta correta é ajustar.
O que a progesterona faz no seu corpo
Na fase lútea, a progesterona é o hormônio dominante. Ela tem um efeito catabólico moderado, ou seja, compete com a testosterona e reduz a capacidade de gerar força máxima e síntese proteica. Não é dramático, mas é mensurável.
Outro efeito importante: a temperatura corporal basal sobe entre 0,3 e 0,5°C nessa fase. Parece pouco, mas significa que você atinge o ponto de exaustão por calor mais rápido, especialmente em treino aeróbico de alta intensidade ou em ambientes quentes (típico de Salvador). A frequência cardíaca em repouso também sobe ligeiramente, e a percepção de esforço para a mesma carga absoluta aumenta (Sims et al., 2023).
Para algumas mulheres, ainda entra em cena a TPM e, em casos mais intensos, a TDPM (transtorno disfórico pré-menstrual): retenção de líquidos, oscilação de humor, sono fragmentado, queda de motivação. Tudo isso afeta como o corpo recebe o estímulo do treino.
Por que forçar mais nessa fase atrapalha
Existe uma cultura de tratar variação de energia como falha de disciplina. Na fase lútea, essa cultura cobra preço. Tentar manter a mesma intensidade e volume da fase folicular, sem ajuste, tipicamente leva a:
- Queda de qualidade técnica nos exercícios mais demandantes
- Maior risco de lesão por sobrecarga em estruturas que estão menos estáveis (a relaxina aumenta levemente a frouxidão articular)
- Sensação de exaustão acumulada que se arrasta para a fase menstrual
- Frustração emocional, porque o corpo está respondendo diferente sem motivo aparente para quem não conhece o ciclo
O resultado: você gasta mais energia, ganha menos, e chega na próxima fase folicular já cansada, comprometendo justamente o período em que o corpo responde melhor ao estímulo.
Desacelerar na fase lútea não é desistir. É proteger a fase em que você vai voltar a treinar pesado.
Como ajusto o treino na lútea
Não corto treino. Ajusto. As alunas mantêm a frequência semanal, o que muda é volume, intensidade e tipo de estímulo:
- Carga 10 a 20% mais leve nos compostos pesados (agachamento, deadlift, supino), preservando técnica
- Faixa de repetições 8 a 12 em vez de 4 a 6, com foco em controle e amplitude
- Mais exercícios de isolamento e máquinas, que cobram menos do sistema nervoso central
- Cardio de baixa a moderada intensidade (zona 2, caminhada, bike leve) em vez de HIIT
- Trabalho de mobilidade e estabilização ganha espaço, especialmente assoalho pélvico e core
- Atenção redobrada à hidratação e ao sono, que são mais sensíveis nessa fase
Para alunas com TPM forte ou TDPM, esse ajuste pode ser maior. Em casos extremos, 2 a 3 dias de movimento muito leve ou descanso ativo (yoga, alongamento, caminhada) é o que faz mais sentido. Não é “perder semana de treino”. É respeitar o que o corpo está pedindo para entregar mais nas semanas seguintes.
O que a pesquisa diz com cautela
É importante deixar claro: a literatura sobre periodização menstrual ainda está amadurecendo. A meta-análise mais robusta sobre o tema (McNulty et al., 2020) mostra que o efeito da fase do ciclo na performance pico é pequeno em mulheres bem treinadas, e a variabilidade entre indivíduos é enorme. Algumas mulheres não percebem diferença nenhuma. Outras percebem muita.
O que isso significa na prática: ajustar pelo ciclo não é regra obrigatória. É ferramenta para quem percebe variação e quer trabalhar com ela em vez de contra ela. O critério final é seu corpo, não a planilha.
Você não precisa estar no seu pico todo dia. Precisa estar progredindo ao longo de meses. E isso significa, às vezes, fazer menos para conseguir fazer mais depois.
O que vem depois da lútea
O ciclo recomeça. A menstruação chega, depois a fase folicular, depois a ovulação. Quando você respeita a lútea como fase de recuperação ativa, o que acontece é que a fase folicular começa com o corpo descansado, sistema nervoso fresco, sono melhor regulado. Os ganhos de força e massa muscular tendem a ser maiores, justamente porque você não chegou na semana de treinar pesado já cansada.
Na minha prática com alunas, esse ajuste sutil é frequentemente o que separa quem progride de forma sustentável de quem trava em platô há meses. Não é treinar mais. É treinar com o corpo, não contra ele.
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- McNulty, K. L., Elliott-Sale, K. J., Dolan, E., Swinton, P. A., Ansdell, P., Goodall, S., Thomas, K., & Hicks, K. M. (2020). The Effects of Menstrual Cycle Phase on Exercise Performance in Eumenorrheic Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine, 50(10), 1813-1827.
- Sims, S. T., Kerksick, C. M., Smith-Ryan, A. E., et al. (2023). International society of sports nutrition position stand: nutritional concerns of the female athlete. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 20(1).
- Carmichael, M. A., Thomson, R. L., Moran, L. J., & Wycherley, T. P. (2021). The Impact of Menstrual Cycle Phase on Athletes Performance. International Journal of Environmental Research and Public Health, 18(4), 1667.
- Elliott-Sale, K. J., Minahan, C. L., de Jonge, X. A. K. J., et al. (2021). Methodological Considerations for Studies in Sport and Exercise Science with Women as Participants. Sports Medicine, 51(5), 843-861.